O que restou do café?
— Você não pode estar falando sério, Theo.
A xícara de café entre nós já estava fria, mas o clima na mesa era de incêndio. Eu olhava para o homem à minha frente e não reconhecia os olhos que, três anos atrás, prometeram diante de um altar que seríamos um só. O silêncio dele era a confirmação que eu não queria receber.
— Eu só preciso de um tempo, Helena. As coisas mudaram, eu mudei. Não sinto mais aquela paz que a gente tinha no começo.
Senti um nó na garganta que nenhuma oração parecia capaz de desmanchar naquele momento. É engraçado como a gente gasta tanto tempo decorando a casa e esquece de blindar a porta.
Eu sempre achei que crises de fé e de casamento aconteciam com os outros, com aqueles casais que não iam aos cultos de domingo ou que não liam a Bíblia juntos. Mas ali estava eu, com o coração em pedaços e um divórcio batendo na porta da frente.
— Paz não é um sentimento que vai e vem conforme a conveniência, Theo. É uma decisão.
Ele se levantou, deixou o dinheiro do café sobre a mesa e saiu sem olhar para trás. Eu fiquei ali, encarando o fundo da xícara, tentando entender em que ponto do caminho a gente tinha soltado a mão de Deus para tentar carregar o mundo sozinhos.
A primeira lágrima caiu e eu soube que aquele era o fim de um capítulo, mas a dor no meu peito dizia que a história, de um jeito ou de outro, estava apenas começando.
Continuação capítulo 2