O deserto que eu escolhi
O som da chave girando na fechadura do meu novo refúgio, um quarto de fundos na casa de um primo, foi o barulho mais definitivo que já ouvi.
Não era apenas uma porta se fechando; era o eco de uma vida inteira ficando para trás. Joguei a mochila no chão e me sentei na beira da cama de solteiro. O silêncio aqui era diferente do silêncio de casa. Em casa, o silêncio era preenchido pela presença da Helena. Aqui, ele era só vazio.
Passei a mão pelo rosto, sentindo o peso do cansaço. Eu disse a ela que precisava de tempo, que eu tinha mudado. E, de certa forma, era verdade. Eu me sentia como um poço seco. Anos de rotina, de cobranças no trabalho e até na igreja, tinham drenado minha alegria. Eu olhava para a Helena e sentia culpa, porque ela continuava sendo a mesma mulher de fé, enquanto eu sentia que estava apenas interpretando um papel.
— Paz não é um sentimento, Theo. É uma decisão.
As palavras dela martelavam na minha cabeça. Helena sempre teve essa mania de ter a resposta certa na hora errada. O problema é que eu não queria decidir nada agora. Eu só queria não sentir o peso de ser o "marido perfeito", o "cristão modelo". Eu me sentia um hipócrita.
Abri a carteira para pegar o dinheiro da janta e minha mão parou. Ali, no compartimento de plástico, estava uma foto nossa. Estávamos na praia, rindo, com o sol batendo no rosto dela.
A Helena tem uma luz que sempre me guiou, mas ultimamente essa luz parecia expor demais as minhas sombras. Eu a amava, mas não sabia mais como estar perto dela sem me sentir insuficiente.
Fui até a janela e olhei para a rua escura. Tentei orar, mas a voz não saía. Parecia que havia um muro de concreto entre mim e o céu. Eu tinha saído de casa para encontrar paz, mas levei comigo toda a tempestade.
Olhei para a minha mão e vi a marca clara da aliança que eu tinha acabado de tirar e colocar na gaveta da cabeceira. O dedo parecia leve demais, e essa leveza me assustava mais do que o peso do metal. Eu achava que o tempo resolveria tudo, mas enquanto eu encarava aquele quarto estranho, uma dúvida cruel começou a brotar: e se o que eu chamei de "precisar de tempo" for, na verdade, eu fugindo de Deus?
Deitei na cama e encarei o teto manchado. O café que tomei com ela ainda deixava um gosto amargo na boca. Eu sabia que a Helena estaria orando. Por outro lado, só conseguia desejar que o sono viesse logo, antes que a consciência me lembrasse que, ao tentar me encontrar, eu talvez tivesse acabado de perder a única coisa que realmente importava.
Continuação capítulo 4