Uma luz no Deserto
— Helena, você não pode se esconder aqui para sempre.
A voz da minha mãe vinha acompanhada do cheiro de pão de queijo fresco, mas meu estômago estava fechado. Eu ainda usava o pijama da noite anterior.
No espelho do banheiro, a imagem que me encarava era a de uma mulher que eu mal conhecia, com olheiras profundas e o olhar de quem perdeu o chão.
— Eu não estou me escondendo, mãe. Só estou tentando entender como se vive o primeiro dia do resto da minha vida.
Caminhei até a sala e evitei olhar para o canto onde ficava a poltrona de leitura do Theo. O apartamento parecia grande demais, cada metro quadrado gritando a ausência dele.
Minha mãe tentou me animar falando sobre o ensaio do ministério de louvor, mas eu só conseguia pensar que, para o mundo lá fora, o sol tinha nascido como em qualquer outra terça-feira. Para mim, o tempo tinha congelado naquela xícara de café frio.
Peguei meu celular e vi que não havia nenhuma mensagem dele. Nenhuma explicação, nenhum "cheguei bem". A tentação de digitar algo era uma luta física, mas lembrei que não se apressa o que Deus está tentando moldar no silêncio.
Theo, do outro lado da cidade, no escritório,
Eu tentava focar na planilha de custos, mas os números pareciam dançar na tela. Tomei três xícaras de café em uma hora, tentando espantar a sensação de que eu era um estranho dentro do meu próprio terno.
— Theo, você está bem? Parece que não dormiu.
Era o Marcos, meu colega de bancada. Eu dei um sorriso forçado, aquele que a gente treina para os domingos de manhã.
— Só uma noite ruim, cara. Muita coisa na cabeça.
A verdade é que eu me sentia um náufrago. Cada vez que meu celular vibrava, meu coração dava um salto, esperando que fosse a Helena, e ao mesmo tempo morrendo de medo do que ela poderia dizer. Eu esperava sentir um alívio por estar "livre" da pressão do casamento, mas o que eu sentia era uma solidão cortante.
Na hora do almoço, saí para caminhar e acabei parando em frente a uma igrejinha pequena, de bairro. As portas estavam abertas. Eu não entrei, mas fiquei ali, parado na calçada.
Pela primeira vez em meses, não senti raiva ou cansaço, apenas uma vergonha imensa. Eu tinha passado anos pregando sobre fidelidade e perseverança, e agora, no primeiro sinal de deserto, eu tinha batido em retirada.
Voltei para o trabalho com a aliança no bolso da calça. Ela batia contra a minha perna a cada passo, como um lembrete constante de que, embora eu estivesse tentando fugir, eu ainda pertencia a alguém. E esse alguém, eu sabia bem, não desistia de mim tão fácil quanto eu desisti de nós.