O encontro inesperado
A semana passou como um borrão cinzento. Eu, Helena, me forcei a ir ao mercado na quinta-feira à noite, tentando retomar alguma normalidade. O corredor de produtos de limpeza, que antes era o lugar onde discutíamos qual amaciante levar, agora parecia um campo minado de memórias.
Eu estava distraída, conferindo a lista no celular, quando virei o carrinho para o corredor de massas. O impacto não foi apenas físico. Nossos carrinhos se chocaram levemente e, antes que eu pudesse pedir desculpas, meus olhos encontraram os dele.
— Theo?
Ele estava mais magro. A barba, que ele sempre mantinha impecável, estava por fazer, e os olhos carregavam uma fadiga que ia muito além da falta de sono. Ele empurrava um carrinho com itens básicos: macarrão instantâneo, leite e um café de marca barata.
Ver aquele homem, que sempre foi tão cuidadoso com a saúde, vivendo de restos, quebrou algo dentro de mim.
— Oi, Helena. Eu... eu não esperava te ver aqui a essa hora.
O tom de voz dele era cauteloso, como se estivesse pisando em vidro quebrado.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eu olhei para a mão dele, a que segurava a cesta. Estava vazia. Sem a aliança. Uma pontada de dor atravessou meu peito, mas eu respirei fundo, buscando a paz que tinha pedido em oração.
— Você está bem? Está se alimentando direito?
Theo deu um sorriso triste, desviando o olhar para as prateleiras de molho de tomate.
— Levando um dia de cada vez. É mais difícil do que eu imaginei, Helena. O silêncio é barulhento demais.
— O silêncio só é ruim quando a gente está fugindo da Voz que realmente importa, Theo.
Ele finalmente me encarou. Vi um lampejo de dor e, por um segundo, achei que ele fosse dizer algo, que fosse pedir para voltar ou admitir que errou. Ele abriu a boca, mas as palavras pareceram travar na garganta.
— Eu preciso ir — ele disse, com a voz embargada. — A gente se fala.
Ele se afastou apressado, deixando para trás o cheiro do perfume que eu mesma tinha dado de aniversário.
Fiquei ali, parada no meio do corredor, com o coração disparado. Eu poderia ter gritado, poderia ter cobrado a aliança ausente ou exigido explicações. Mas, em vez disso, apenas sussurrei uma oração ali mesmo, entre os pacotes de arroz e feijão.
— Senhor, alcança o coração dele onde eu não consigo chegar.
Eu sabia que aquele encontro não tinha sido coincidência. Deus estava mexendo nas peças do tabuleiro, e embora o Theo ainda estivesse fugindo, ele já não conseguia mais correr com a mesma velocidade.
A reconciliação ainda parecia distante, mas pela primeira vez, eu vi uma rachadura na armadura dele. E é pela rachadura que a luz entra.