A queda do muro
O encontro no mercado foi o gatilho que eu, Theo, não queria. Ver a Helena ali, firme, mesmo com a tristeza estampada no rosto, me fez perceber que eu não estava apenas fugindo de um casamento; eu estava fugindo de mim mesmo.
Voltei para o quarto de fundos e joguei as compras de qualquer jeito sobre a mesa bamba. O macarrão instantâneo parecia ter gosto de papel.
Sentei na cama e, por um impulso que não sentia há dias, abri a gaveta da cabeceira. Peguei a aliança. O metal brilhava sob a lâmpada fraca do teto.
Por que era tão difícil colocá-la de volta? Porque eu sabia que, no momento em que fizesse isso, teria que encarar o fato de que eu era o único responsável por cada lágrima que ela derramou.
A noite caiu e, com ela, veio uma tempestade pesada. O barulho dos trovões parecia pontuar os meus pensamentos.
Lembrei-me de um versículo que meu pai sempre repetia: "Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes". A soberba era o meu muro.
Eu queria ter razão, queria ter autonomia, queria não precisar de ninguém, nem de Deus.
— Senhor, eu não aguento mais fingir.
A frase saiu como um sussurro, mas pareceu um grito no quarto vazio. Me ajoelhei ali mesmo, no chão frio. Chorei como não chorava desde a infância. Chorei pela Helena, pela minha casa vazia e pela minha fé, que eu tinha deixado mofar em algum canto da memória.
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Eu, Helena, não conseguia dormir. A chuva batendo na janela do quarto trazia uma melancolia difícil de ignorar. Eu estava na sala, enrolada em uma manta, lendo o Salmo 51, quando o interfone tocou.
Olhei para o relógio: quase meia-noite. Meu coração disparou. Atendi com a mão trêmula.
— Helena? Sou eu.
A voz do Theo estava embargada, quase irreconhecível por causa do choro.
— Theo? O que aconteceu? Você está bem?
— Eu não estou bem, Helena. Eu nunca estive tão mal. Eu estou aqui embaixo. Eu só precisava te dizer que eu coloquei a aliança de volta. Eu ainda não sei como consertar tudo, mas eu não quero mais fugir.
Senti minhas pernas fraquejarem. Não era o final da história, eu sabia.
Havia muito o que conversar, muitas feridas para cicatrizar e um longo caminho de perdão pela frente. Mas, enquanto eu apertava o botão para abrir o portão, entendi que aquele café frio não era o fim.
Abri a porta do apartamento. O elevador chegou e, quando a porta se abriu, vi o Theo.
Encharcado e exausto, mas com os olhos de quem finalmente tinha encontrado o caminho de casa.
O abraço apertado veio.
— Entra. Vou passar um café fresco.
Dessa vez, não haveria silêncio. Teríamos a verdade, a dor e, acima de tudo, a esperança que só nasce depois que a gente aceita que não pode carregar o mundo sozinho.
A reconciliação tinha começado.